O 'Veredito da Ave Dodô': Todas as Terapias são Iguais?
Em 1936, Saul Rosenzweig sugeriu que o que importava era o vínculo, não a técnica. Por que em 2026 sabemos que isso é um mito perigoso?
“Todos ganharam e todos devem receber prêmios”. A frase da Ave Dodô em Alice no País das Maravilhas deu nome a um dos debates mais longos da psicologia: o de que todas as psicoterapias funcionam da mesma forma, independentemente da técnica.
A Hipótese de Saul Rosenzweig (1936)
Saul Rosenzweig propôs que os “fatores comuns” — como a empatia do terapeuta e o vínculo com o paciente — seriam os únicos responsáveis pela mudança clínica. Durante décadas, essa ideia serviu como desculpa para o abandono do rigor técnico. Se o que importa é apenas “gostar do terapeuta”, por que estudar protocolos complexos?
O Fim do Mito: A Era das Evidências
Hoje, a Prática Baseada em Evidências (PBE) enterrou definitivamente o Veredito da Ave Dodô. Embora o vínculo seja fundamental (ele é a base necessária), a técnica específica faz toda a diferença.
Estudos de meta-análise modernos demonstram, por exemplo, que para Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou Fobias Específicas, a Exposição e Prevenção de Resposta (EPR) é estatisticamente muito superior a qualquer “terapia de conversa” genérica. O vínculo sem a técnica correta é apenas um bom acolhimento; a terapia real exige ambos.
No meu consultório, o vínculo é o ponto de partida, mas a escolha da intervenção é ditada pelo que a ciência provou ser superior para o seu sofrimento.
Referências Selecionadas:
- Rosenzweig, S. (1936). Some Implicit Common Factors in Diverse Methods of Psychotherapy.
- Luborsky, L. et al. (1975). Comparative Studies of Psychotherapies: Is It True That ‘Everyone Has Won and All Must Have Prizes’?
- Chambless, D. L. & Hollon, S. D. (1998). Defining Empirically Supported Therapies. Journal of Consulting and Clinical Psychology.
- Cuijpers, P. et al. (2019). The ‘Dodo Bird Verdict’ in the Treatment of Depression: A Meta-Analysis.